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A cultura antiplanejamento


     Enquanto a maioria dos americanos já tem reservas de hotel e de passagens para uma viajem de férias que pretende realizar daqui a dois anos, a maioria dos brasileiros não sabe nem para onde irá no próximo feriado prolongado. Nós brasileiros não costumamos planejar direito nem pequenos eventos como, por exemplo, churrascos no quintal. Quem não se lembra do caso de um amigo churrasqueiro que só percebeu que não tinha carvão, sal grosso ou cervejas geladas suficientes quando a sua casa já estava repleta de convidados ?

     Na maioria dos países desenvolvidos do Hemisfério Norte o ato de planejar é uma atitude culturalmente consolidada. Talvez seja porque esses povos que enfrentam invernos rigorosos precisam planejar até para sobreviver. Nesses países a cultura planejadora pode ser detectada no estudo do folclore, das histórias infantis, músicas, canções populares e outras formas de expressão cultural de um povo. A conhecida fabula francesa da cigarra e da formiga é um exemplo cultural de como os europeus preocupam-se em ensinar as crianças e adultos a pensar e planejar o futuro. O famoso livro inglês "Alice no País das Maravilhas" procura mostrar nos seus diálogos infantis o quanto é importante definir um objetivo, uma direção, um rumo, uma meta a atingir.

     Pesquisando letras da música popular brasileira encontrei apenas alguns lampejos favoráveis á transmissão inconsciente de uma cultura planejadora. Gostei de ver, por exemplo, o Paulinho da Viola estabelecendo a ligação temporal do planejamento entre passado e futuro, ao dizer: " Quando penso no futuro, não esqueço o meu passado". Por outro lado, encontrei nas músicas populares do Brasil uma série gigantesca de torpedos culturais contra a atitude planejadora. Eis alguns:


::: " Deixa a vida me levar (vida leva eu) " e " O negócio é deixar rolar. E aos trancos e barrancos, lá vou eu " - Zeca Pagodinho;


::: " Vou deixar a vida me levar pra onde ela quiser " - Banda Skank;


::: " Vida breve. Já que não posso te levar. Quero que você me leve " - Cazuza em "Vida,louca vida";


::: " Coisa que gosto é poder partir sem ter planos " - Milton Nascimento em "Encontros e despedidas";


::: " Vou vivendo essa vida do jeito que ela me levar " - Benito de Paula em "Do jeito que a vida quer";


::: " Vou deixar a rua me levar" - Ana Carolina em "Pra rua me levar";


::: " E sozinho sem rumo vou seguindo nessa estrada " - Roberto Carlos em "Silêncio";


::: " Que se f..., deixa acontecer " - Racionais MC´s em "Tô ouvindo alguém me chamar";


::: " Não há nada que eu possa fazer a não ser sair sem destino " - Capital Inicial em "Mais".


::: " Não sei se estou indo ou estou voltando, se estou saindo ou estou chegando " - Trio Parada Dura em "Inferno da vida";


::: " Vivo fugindo sem destino algum. Sigo caminhos que me levam a lugar nenhum " - Roberto Carlos e depois Leonardo em "120...150...200 km por hora";


::: " Nas revoadas, redemoinhos, vento, ventania, me leve sem destino " - Biquíni Cavadão em "Vento ventania".


     O resultado dessa pesquisa mostrou que a cultura antiplanejamento do brasileiro está presente em diversas letras de nossas músicas populares. Não sou contra esse respeitável jeito brasileiro de viver o presente, de dizer que "o que se leva da vida é a vida que se leva" ou que "no fim dá tudo certo". Acho errado é levar essa mesma cultura antiplanejamento para o mundo dos negócios. Errado é o ato aventureiro e inconseqüente do empreendedor que inicia um negócio sem antes fazer um bom plano.


EDER LUIZ BOLSON - empresário, fundador de cinco empresas, professor universitário e consultor de empresas. Engenheiro formado pela Universidade Federal de Santa Maria, RS. Fez curso de mestrado na North Dakota State University dos Estados Unidos.

Fez diversos cursos de especialização em gestão de negócios e marketing no Brasil e exterior. Foi professor de Técnicas de Elaboração e Avaliação de Projetos do Departamento de Economia da AEUDF (Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal) . Foi Assessor de Planejamento e Gerente da EMBRAPA/SPSB.

É presidente da APSEMG (Associação dos Produtores de Sementes e Mudas de Minas Gerais) e Vice-presidente para Negócios Internacionais da ABRASEM (Associação Brasileira dos Produtores de Sementes). Fundador e Vice-presidente do SINDBIO/FIEMG (Sindicato das Empresas de Base Biotecnológica no Estado de Minas Gerais). É membro do Conselho de Representantes da FIEMG. È professor de Empreendedorismo e Planos de Negócio de cursos de pós-graduação e consultor da Fundação Israel Pinheiro.

Sua experiência prática empreendedora é interessante e diversificada, pois a partir de sonhos ou visões fundou empresas que se desenvolveram e hoje atuam com sucesso, gerando emprego e renda, em diversos setores como: alta tecnologia, indústria, comércio e prestação de serviços. Continua criando empresas e ajudando outras pessoas a criarem novos negócios.


Eder Luiz Bolson é autor do Livro: "Tchau, Patrão !"




Tchau, Patrão!
EDER LUIZ BOLSON

Editora: Senac
Ano: 2003
Edição: 1
Número de páginas: 189
Acabamento: Brochura
Formato: Médio

























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