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Mostre, não conte
Escrever é fácil, contar uma boa história é que é difícil.
Uma das primeiras lições de cursos e livros sobre criação literária é o "mostre, não conte" (do inglês show don't tell). É o seguinte: O maior erro de muitos escritores iniciantes é que eles nos contam fatos sobre seus personagens e situações, quando o ideal é deixar o leitor conhecer uma história e seus personagens à medida que a narrativa evolui.
É mais fácil explicar isso com um exemplo. Imagine que você entra em uma sala de cinema, espera os trailers, come pipoca e finalmente o filme começa. Na primeira cena você escuta:
"José é um homem de meia idade, possui família e um bom emprego, mas ultimamente tem sentido um vazio dentro de si, talvez causado pelo rumo que sua vida tomou".
Esse é o produto típico de um autor que conta.
Qual seria a alternativa?
Você entra no cinema, espera os trailers, come pipoca e finalmente o filme começa. Na primeira cena, você vê um homem engravatado, de meia idade chegando à mesa da cozinha. Sua mulher se vira para cumprimentá-lo:
- Bom dia meu bem! Dormiu bem?
- Oi. Sim, claro.
- O que há de errado?
- Bem, na verdade tive um pesadelo.
- É mesmo? E o que você sonhou?
- Eu estava sozinho em uma sala, sentado em uma mesa. De repente, meu avô aparece e começa a rir de mim. Eu fiquei lá, sentado, olhando para ele, me sentindo cada vez pior enquanto ele ria cada vez mais desesperadamente...
- Nossa, e o que você acha que isso significa?
- Fácil! Meu avô sempre me disse que eu poderia ser o que bem entendesse. Bastava eu acreditar em mim que chegaria aonde quisesse. O sonho significa que não sou o que imaginei que iria me tornar quando era mais jovem, me tornei uma piada.
Se você fosse escolher pela primeira cena, qual seria o melhor filme? Como público, não queremos que alguém venha e nos conte tudo que está acontecendo. Queremos conhecer a situação, a história e os personagens. Queremos viver as histórias sob a perspectiva dos personagens, nos identificar com eles e seus problemas e tentar chegar a nossas próprias conclusões. É assim que ao final de um bom livro ou filme sentimos que estamos deixando um amigo para trás, aquele personagem especial que aprendemos a conhecer...
Assim, autores que se prendem ao conte acabam criando obras chatas e frias demais. O bom escritor é aquele que nos faz mergulhar na história, nos esquecendo pelo menos por um minuto de que estamos sentados no sofá de casa ou na poltrona do cinema. Ninguém consegue isso dizendo: "José está triste".
É claro que o mostre é algo muito mais difícil de se fazer, e por isso muitos professores e escritores qualificam a grande maioria dos escritores que se submetem ao conte como preguiçosos ou incompetentes.
E por que estou te contando tudo isso? Bem, cheguei à conclusão que nos acostumamos demais com o conte na administração.
Empresas pagam anúncios para contar ao mundo quão boas elas e seus produtos são. Profissionais aprendem a enfeitar ao máximo seus currículos para dizer a potencias empregadores quão fantásticos eles são. Qualquer revista ou website contém um punhado de gente te dizendo o quanto eles são bons e como você seria feliz se fizesse negócios com eles.
Com o que aprendemos sobre o "mostre, não conte", é de espantar que a grande maioria dessas mensagens não cause reação nenhuma? Pior, com tanta gente querendo contar para cliente, parceiros e empregadores quão fantásticos eles são, é de se espantar que todos pareçam iguais?
Qual a moral da história? Pare de se concentrar em contar aos outros o que você ou a sua empresa fazem, e comece a mostrar por que alguém iria gostar de te conhecer.
Assim como na narrativa, isso dá mais trabalho, mas vale a pena. Uma coisa é contar para alguém quão fantástico e inteligente você é, outra é mostrar isso e deixar que os outros tirem suas próprias conclusões.
Sua empresa oferece algum serviço? Esqueça aquele folder dizendo como você é bom, e me envie uma pesquisa, artigo de revista ou jornal mostrando o resultado que empresas reais tiveram com o seu serviço (ou serviços parecidos, caso o seu seja novidade). Não me diga que você é especialista em algo, mostre-me algo que você já fez com esse conhecimento. Não me diga como sua empresa é cheia de pessoas extraordinárias (hoje em dia, qual não é?), me diga o que eles fazem e podem fazer por mim. O mostre também inclui oferecer conhecimento, serviços e produtos gratuitamente, permitindo assim que seu cliente veja na prática sua capacidade de ajudá-lo.
Sim, isso tudo dá mais trabalho que o conte, em que basta fazer alguns anúncios, gastar dinheiro e culpar empresas de propaganda ou o "pessoal do marketing" pelo resultado ruim. Mas como muitos escritores iniciantes acabam descobrindo, muitas vezes a diferença entre o sucesso e o fracasso é a disposição em aceitar o caminho mais difícil, não se contentando com atalhos fáceis, mas ineficazes.
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Fábio Zugman - Mestre em Administração pela Universidade Federal do Paraná/UFPR, onde atua como professor.
Fábio Zugman é autor do Livro: "Administração para Profissionais Liberais"
É mestre em Administração pela Universidade Federal do Paraná/UFPR, onde atua como professor.

Nota do Site:
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Administração: para Profissionais Liberais
FABIO ZUGMAN
Editora: Campus
Ano: 2004
Edição: 1
Número de páginas: 232
Acabamento: Brochura
Formato: Médio
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