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O dia em que o mercado sangrouPor: Ivan Sant´Anna
Ticker tape, para quem nunca ouviu falar, era uma fina tira de papel, semelhante às usadas nos antigos aparelhos de telégrafo, que, ao longo dos anos, reportou as operações fechadas na Bolsa de Valores de Nova lorque. A cada novo negócio, um digitador a postos no pregão lia a boleta correspondente e teclava, numa máquina de perfurar, a sigla da ação negociada, o lote e o preço. Na outra extremidade do sistema, as corretoras de valores tinham seu terminal de ticker tape. Os traders e os brokers manuseavam a fita, enquanto a máquina a cuspia. Assim ficavam sabendo dos negócios na bolsa.
Inventada por Thomas Edison em 1870, a ticker tape, com sua batida característica, tornou-se o pulsar do mercado. Nos dias de grande movimento da bolsa, o trabalho acelerado do digitador - ao ritmo, hoje jurássico, de um caractere por segundo - se refletia no matraquear dos terminais. Nos dias de mercado calmo, a marcha lenta da máquina era a própria modorra, tal como a batida, nas fendas divisórias dos trilhos, das rodas de um trem se movimentando lentamente num pátio de manobras. Assim, ao entrar em suas trading rooms, os profissionais podiam "ouvir", antes de ver, o mercado.
Por ocasião das grandes comemorações - o Armistício, por exemplo, final da Primeira Guerra Mundial, que aconteceu em 11 de novembro de 1918 -, as fitas da ticker tape, lançadas das janelas do alto dos prédios da área financeira de Manhattan, se transformavam numa chuva festiva de serpentinas.
Na Terça-Feira Negra, 29 de outubro de 1929, dia do crash da bolsa, a ticker tape trabalhou com um atraso de duas horas e meia. Ou seja, as cotações que os corretores viam em seus terminais já não representavam a realidade do mercado. Este caía vertiginosamente, sem que os digitadores pudessem acompanhá-lo. Naquele dia, as serpentinas também voaram pelas janelas dos escritórios, só que em sinal do mais profundo paroxismo. Tanto é assim que foram acompanhadas pelo mergulho macabro de 11 suicidas.
Com os avanços tecnológicos, a ticker tape deixou de ser um sinal telegráfico, transformando-se numa esteira luminosa, projetando os mesmos caracteres, só que em telas instaladas nas corretoras. Veio então a era da informática. A tira de papel e os projetores tornaram-se peças de museu. Foram substituídos pela miríade de terminais de cotação e de notícias, que hoje podem ser vistas em qualquer instituição financeira.
Nos últimos três anos, estudei os atentados de 11 de setembro de 2001, para um livro publicado recentemente, na ocasião do quinto aniversário da tragédia.
Exatamente às 8h46m40s daquela manhã ensolarada de final de verão, o vôo 11 da American Airlines chocou-se contra a Torre Norte do World Trade Center. Dezessete minutos depois, o United Airlines 175 batet. na Torre Sul.
Como não podia deixar de ser, os ataques derrubaram violentamente os preços das ações. Só que, dessa vez, não foram apenas as cotações que sofreram perdas. Em 11 de setembro, o mercado foi estuprado, atingido fisicamente. Morreram centenas e centenas de brokers e traders.
Nas torres gêmeas, havia 96 instituições financeiras, entre elas a Cantor Fitzgerald. Esta ocupava do 101º ao 105º pavimento da Torre Norte. O vôo 11 arrasou do 94º ao 98º andar do prédio, cortando qualquer rota possível de fuga. As pessoas que se encontravam acima da zona de impacto morreram no incêndio ou no posterior desmoronamento da torre. Entre elas, todos os 658 funcionários da Cantor Fitzgerald que estavam de serviço naquela manhã. Eles representavam dois terços da força de trabalho da empresa e 22% do total de mortos em 11 de setembro.
Isso tudo aconteceu a 600 metros do pregão da Bolsa de Valores de Nova lorque.
Certo dia, durante meu trabalho de pesquisas, fiquei imaginando o que teria acontecido com a ticker tape, se a fita telegráfica ainda rodasse nas trading desks no dia 11 de setembro de 2001. Provavelmente ela teria se acelerado, nervosa, quando as primeiras notícias, ainda incertas - dando conta do choque de um pequeno avião contra o World Trade Center -, chegaram ao pregão. Depois a fita teria disparado, os preços caindo, os lotes subindo, o matraquear da máquina agora se assemelhando a uma composição em alta velocidade ou a uma rajada de metralhadora.
Finalmente, quando o mercado foi suspenso, e os digitadores fugiram com os floor traders, teria sobrado apenas um silêncio abissal. O labirinto de fitas, espalhado por toda a Baixa Manhattan, continuaria a rodar, agora sem a impressão das siglas das empresas, sem os números dos lotes e dos preços, como se fosse o eletrocardiograma de um cadáver.
Em todas as quedas do mercado, os touros perdem, os ursos ganham. Mesmo em outubro de 1929, foi isso o que aconteceu. A exceção fica por conta da barbárie de 11 de setembro. Nesse dia, touros e ursos, imobilizados, presas da mesma armadilha letal, se irmanaram no desespero. Desde os primórdios do mercado americano de ações, no século 17, foi sua pior hora.
(Fonte: Resenha BM&F, n 169)
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