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Açúcar: a terceira onda ?Por: Ivan Sant´Anna
Um dos riscos que corro, cada vez que tamborilo uma nova Bulls & Bears no teclado de meu computador, deve-se ao fato de que a crônica é escrita com muita antecedência. O assunto que escolho pode perder a relevância entre este momento e esse aí em que você, caro amigo trader leitor, está lendo a coluna.
Mas, pensando bem, ter medo de riscos contradiria meu currículo de 37 anos como operador de mercado. Em quase quatro décadas, eu corri riscos 24 horas por dia, sete dias por semana, mesmo no domingo à tarde, em pleno Maracanã. Entre um e outro gol de meu Fluminense, um acontecimento não previsto (terremoto, denúncia de escândalo político, golpe de estado etc.) poderia estar vindo ao encontro da posição com a qual eu me abraçara pouco antes do fechamento da sexta-feira.
Pois bem, feitas as ressalvas defensivas, hoje vou falar sobre o açúcar, cotado, neste exato momento, a US$0,1651 por libra-peso. Pode ser que esse mercado esteja iniciando uma terceira onda, o terceiro grande apogeu dos touros.
Embora o açúcar tenha sido inicialmente produzido na Índia, 300 anos antes de Cristo, e, mais tarde, plantado na Sicília e na Espanha mais como uma commodity exótica, substituta do mel (adoçante mais usado na época), a cultura e o consumo em larga escala só começaram a ocorrer após os grandes descobrimentos. Na maior migração da história, milhões de escravos negros foram trazidos da África para o Novo Mundo, boa parte deles para plantar cana-de-açúcar nas ilhas do Caribe e no Brasil. E o novo produto foi comercializado na Europa por preços muito inferiores ao do mel.
No início do século XIX, o açúcar passou a ser extraído também da beterraba, na Europa e nos Estados Unidos. Criou-se uma raridade (duas culturas para o mesmo produto) que se mantém única até hoje.
O grande fascínio do açúcar, como commodity, é que seu preço é tão barato que pode dar-se ao luxo de subir 50 vezes - como aconteceu nos seis anos compreendidos entre setembro de 1968 e novembro de 1974, quando a cotação da libra-peso se elevou de US$0,0132 (isso mesmo, pouco mais de um centavo) para US$0,66 - e continuar a ser consumido. Se o café, por exemplo, sair de US$0,50 por libra-peso (preço que já freqüentou várias vezes) para US$25,00, o consumo vai literalmente desaparecer (por isso, jamais chegará lá). O mesmo acontecerá com o suco de laranja, se sair de US$1,00 para US$50,00.
Como em qualquer mercado, o preço do açúcar se rege pelas forças, contrárias, de produção e consumo. A equação mágica, no caso do açúcar, é a relação estoque-consumo.
Existem várias teorias explicando o atual bull market: consumo na China e na Rússia; canalização da cana-de-açucar para produção de álcool no Brasil; crescimento da economia mundial; problemas meteorológicos em diversos países produtores.
Na verdade, o que faz o preço do açúcar disparar para a estratosfera é simplesmente o medo de que vá faltar, já que o consumo tende, grosso modo, à inelasticidade. Aliás, "medo" tal como "ganância" são palavras-chave na psicologia do mercado.
Para um trader de futuros, um bull market de açúcar pode significar sua redenção, sua independência financeira. Pode justificar sua opção profissional. Pode ser o trade de sua vida. Só que o tal medo de o produto faltar só aconteceu duas vezes: em 1974 e em 1981.
Na primeira, como já vimos, o preço chegou a US$0,66. Na segunda, bateu US$0,45. Como em cada contrato de açúcar se obtêm US$11,20 por centésimo de centavo (112.000 vezes), não é difícil entender por que há traders que esperam nova oportunidade há um quarto de século.
Em 1974, o bull market de açúcar foi tão significativo no Brasil que, só para citar um exemplo, nosso maior produtor na época, o grupo Copersucar, foi o grande patron daquele ano. Patrocinou, sozinho, a transmissão, pela TV da Copa do Mundo na Alemanha. Coube também à Copersucar bancar, no mesmo período, o primeiro e único carro brasileiro de Fórmula 1, que rodou com o circo pilotado pelos irmãos Fittipaldi.
Como nunca deixa de acontecer nos mercados agrícolas, após os dois grandes bull markets do açúcar, em todo o mundo, a área plantada de cana e de beterraba subiu muito, elevando a relação estoque-consumo e dando lugar a novo ciclo dos ursos. Isso, inevitavelmente, acontecerá também desta vez. Resta saber em que estágio se encontra o atual bull market. Se em seus prolegômenos (caso estejamos repetindo 1974 e 1981) ou em sua apoteose, em seus highs.
Sugiro que o trader leitor preste muita atenção ao açúcar nos próximos meses. Mas não posso deixar de arrazoar sobre dois outros aspectos, antagônicos e totalmente desprovidos de embasamento técnico.
Neste ano, tem Copa do Mundo na Alemanha - dizem os touros, confiantes.
Paira sobre esse mercado a maldição das almas penadas dos escravos arrancados de suas tribos e de suas famílias, na África, para trabalhar nas plantações do Novo Mundo - argumentam os ursos, agourentos.
(Fonte: Resenha BM&F, n 167)
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