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Mercador de incertezasPor: Ivan Sant´Anna
Na segunda metade dos anos de 1970, eu era diretor e um dos maiores acionistas de uma sociedade corretora de valores do Rio de Janeiro, quando o Banco Central interveio em determinado conglomerado financeiro - desnecessário mencionar nomes - e decretou sua liquidação extrajudicial. Para meu infortúnio, eu havia vendido, para diversos dos meus clientes, certificados de depósito bancário emitidos por esse grupo.
Pois bem, no dia da fatídica intervenção, que caiu em uma sexta-feira, fui para casa levando comigo vários documentos da corretora.
Passei o fim de semana examinando as contas dos clientes e fazendo minhas próprias contas. Somando daqui, abatendo dali, transferindo dacolá, analisando balanços, avaliando ativos e passivos, concluí que, se vendesse todos os meus bens, daria para reembolsar os que haviam aplicado, por meu intermédio, nos papéis do conglomerado. E, não sem o aperto doloroso no peito e o gosto amargo de derrota na boca - afinal, levara 19 anos para acumular meu patrimônio -, decidi pagar, de meu bolso, uma a uma, todas as aplicações.
Só que, em vez de pagá-los imediatamente, abatendo pro rata os juros futuros dos papéis, fiz questão de resgatar cada um dos títulos só na data de seu vencimento - nem um dia a mais, nem um dia a menos -, cronograma este que cumpri ao longo de uns seis ou oito longos meses.
Até hoje não entendo bem por que tomei decisão tão destituída de praticidade - já que pagaria mesmo, por que fazê-los sofrer durante tanto tempo o padecimento da incerteza? Sem mencionar os juros que economizaria no período, caso antecipasse os reembolsos.
Terminada minha liquidação extrajudicial particular - se é que podemos chamá-la assim -, decidi voltar a trabalhar no mercado. Afinal de contas, já estava com quase 40 anos de idade. Comprar e vender títulos era só o que sabia fazer. Quase um ano já se passara desde o trauma da tal intervenção e precisava ganhar a vida novamente, para poder pagar as contas no final de cada mês. Tinha de "começar de novo", como cantava Simone naqueles tempos.
Consegui, sem maiores dificuldades, emprego de broker em uma corretora. Cerrei os punhos, passei uma borracha no passado e, cheio de gás, fui à luta. Pensei com meus botões que teria a clientela mais fiel do mundo. Gente que não perdera um centavo comigo, a despeito do que havia acontecido com seus papéis.
Pois bem, pasmem, nenhum daqueles clientes voltou para mim. Nenhunzinho só. Captei outros, até maiores, pessoas físicas, jurídicas, fundos de pensão e especuladores os mais diversos. Mas, aqueles antigos, nunca mais.
Desnecessário descrever, caro amigo trader leitor, meu sentimento inicial da mais profunda decepção. Me senti traído. Apunhalado pelas costas. Mas o tempo foi passando, me pus no lugar de cada um deles e acabei lhes dando razão. Pois, honestamente, teria feito a mesma coisa.
Quando aplicaram comigo, esperavam receber do banco emissor dos certificados de depósito bancário, e não de mim, como se o resgate dos papéis fosse um favor, uma benesse, um gesto de altruísmo. O fato de que não tiveram prejuízo era um simples detalhe.
O importante é que eu lhes indicara um mau investimento. E, se eu estivesse alavancado naqueles papéis, mesmo que fosse um novo São Francisco de Assis, uma nova Madre Teresa de Calcutá, eles teriam tido perda total. A sorte é que eu tivera dinheiro disponível, na ocasião, para lhes pagar. Além da intenção, é claro, único mérito que me coube.
A grande lição que tirei daquele episódio é a de que o mercado financeiro é objetivo, pragmático, impessoal, frio, racional, insensível. Não nutre nenhum tipo de sentimento. Não ama. Não detesta. Não admira. Não abomina.
Quem aplica nas obrigações de determinado país, não quer saber se seu governo é bonzinho, se respeita o meio ambiente, os direitos humanos, se é ditadura ou democracia, se é de direita ou de esquerda. Os investidores querem, isso sim, é saber se o país tem condições, e disposição, para honrar os compromissos assumidos em seu nome. E se tem histórico de adimplência. Isso vale para os títulos emitidos pelas empresas também. Não é à toa que, por causa de uma moratória dos anos de 1980, o Brasil seja obrigado a pagar até hoje taxas de juro elevadas e que o risco país continue tão alto, mesmo após a queda dos últimos anos.
Toda vez que encontro uma daquelas pessoas que reembolsei naquela época - já se vão quase 30 anos -, ela me faz a maior festa. Se está na outra calçada, atravessa a rua só para falar comigo. Se desmancha em elogios e louvaminhas. Se tem alguém do lado, conta logo para o companheiro:
- Imagina que, certa vez, esse cara... - e conta a historinha, me dando palmadinhas carinhosas no ombro.
Mas, se eu blefar com uma delas, "sabe, abri uma corretora de valores, estou captando clientes", o investidor irá disfarçar, sair de mansinho e voltar para sua calçada.
Porque um dia eu lhe vendi incertezas e disso ele jamais se esquecerá.
(Fonte: Resenha BM&F, n 168)
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