Uma das facilidades proporcionadas pela Internet é a possibilidade de realização de operações bancárias sem ter que se deslocar à agência. Essa facilidade, no entanto, priva o banco de poder oferecer, de modo imediato (por exemplo, por meio de afixação de cartazes junto à boca do caixa onde você iria pagar uma conta), alguns de seus serviços mais lucrativos (obviamente para eles, bancos), como títulos de capitalização, empréstimos pessoais e seguros (que, na maioria dos casos, são desnecessários e inadequados ao seu perfil econômico).
Para compensar essa perda, o que o banco faz? Se você não vai ao banco, o banco vai até você!
Exemplo prático que ocorreu comigo recentemente – e que talvez possa também ter ocorrido com você: ao acessar a minha conta bancária via Internet Banking, a primeira e “vistosa” mensagem que apareceu na tela do meu computador tinha o seguinte teor: “Parabéns! Você tem um crédito pré-aprovado de R$ 40.000,00 para comprar seu próximo veículo. Clique aqui e contrate AGORA”.
Pooooooooxaaaa! Que “maravilha” de negócio é esse, não é mesmo? Dinheiro “fácil”, na mão, sem precisar de qualquer tipo de comprovante, afinal, já estava inclusive “pré-aprovado”. E tudo isso sem precisar ir até a agência. O crédito está a um clique de distância.
Conversa para boi dormir.
Se você for educado financeiramente, irá interpretar direitinho a palavra “crédito” como sinônimo de “dívida”, uma dívida bem cara para fazer você se afundar pelos próximos 12, 24, 36 ou 48 meses, transformando a compra de um belo carro em dois carros – só que, nesse caso, como você está comprando com dinheiro alheio – do banco – você estará levando somente um carro. Pior: carro esse que, ao sair da concessionária, normalmente já perde de cara de 10 a 30% de seu valor de mercado.
O que estou querendo dizer? Simples: que você leia e interprete corretamente as palavras que estão sendo anunciadas por aí. Crédito é sinônimo de dívida, logo, deve ser lido como tal. Crédito consignado não passa de dívida consignada. Crédito imobiliário é dívida imobiliária. Cartão de crédito é, por óbvio, cartão de dívida. Crédito direto ao consumidor não passa de dívida direta ao consumidor. Crédito pessoal todo seu é dívida pessoal toda sua. Só sua. E dívidas precisam ser honradas, integralmente e no vencimento, sob pena de causarem muita dor de cabeça para você, tais como inscrição no SPC, cobrança judicial, telefonemas do seu “querido” banco etc. etc. etc.
Mas por quê os bancos e instituições financeiras usam a palavra “crédito”, ao invés da palavra “dívida”? Porque “crédito” é uma palavra bonita. Faz com que você se sinta importante. Dizer que você tem crédito com alguém significa dizer que você inspira confiança. Crédito é, assim, sinônimo de confiança. Só que, nas relações financeiras, também quer dizer a tomada de uma boa e nada insignificante dívida. As instituições financeiras costumam apelar aos sentimentos, apelar às emoções, para fisgar seus clientes mais incautos, e nada melhor do que fazer o cliente morder a isca do que juntar a expressão “você tem crédito” com um valor bem alto, que normalmente está acima de seus investimentos no banco. Tudo para dar a impressão de que você tem realmente tudo o que a propaganda do banco diz que você, na verdade, não tem.
Balela. Quando você, ao sair do Internet Banking de sua conta bancária, recebe um aviso de que tem um crédito pessoal pré-aprovado de R$ 20.000,00, isso nada mais significa do que você tem uma dívida pré-aprovada de R$ 20.000,00 – na verdade, a dívida é muito maior, porque você, se tomar o referido crédito, terá que devolver não só os R$ 20 mil, mas os R$ 20 mil acrescidos de todos os encargos financeiros que são cobrados nessa modalidade de empréstimo: juros, IOF etc. etc. etc.
Se você tem um limite de crédito de R$ 10 mil no cartão de crédito, isso nada mais significa do que dizer que você tem um limite de dívidas de R$ 10 mil.
Mas é lógico que as instituições financeiras não vão dizer para você algo como: “Parabéns! Você tem uma dívida pré-aprovada de R$ 40.000,00 para comprar seu próximo veículo. Clique aqui e contrate AGORA”. Porque dívida é uma palavra que assusta, causa temor, e faz as pessoas não assumirem um negócio. Mas a maioria, traída pelas próprias emoções, contrata mesmo assim essas inúmeras ofertas de crédito travestidas de dívidas, dos mais variados tipos. Por quê? Porque, fisgadas pelo apelo emocional das instituições financeiras, não souberam ler corretamente o significado e o conteúdo das palavras que são anunciadas. O resultado não é somente o acúmulo de dívidas e mais dívidas, mas também a destruição, lenta e gradativa, do próprio equilíbrio emocional, pois o estresse gerado pela existência de dívidas passa muito longe de compensar a alegria fugaz e momentânea de saber que tem um crédit… ooops, dívida, pré-aprovada ao alcance de “um clique de mouse”.
Portanto, meus amigos, procurem ler as ofertas de crédito anunciadas aos milhares com as lentes da educação financeira: crédito é sinônimo de dívida, e como tal deve ser analisada. E, na medida do possível, evitada também.
É isso aí!
Um grande abraço, e que Deus os abençoe!
Guilherme é autor do blog Valores Reais – www.valoresreais.com
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“Meus parabéns, você acaba de ganhar o direito de dever R$ 20 mil para nós! Clique aqui e nos faça feliz!”
rsrsrs
Com esse texto eu fico pensando. Eu tenho cartão de crédito internacional, então tenho uma dívida internacional?
Vishhhhhhhhhhh
Brincadeiras a parte, texto muito bom. Uma verdade que muitos não sabem. Alias, sabem mas não consideram como nós consideramos.
Meu ponto de vista: crédito é algo que eu vou é ganhar com meus esforços e confiança que ganho com as pessoas que me rodeiam.
Muito bom o texto, daquele que nos abre a cabeça pra certas coisas. Realmente é um jogo de palavras que passa despercebido mas que faz toda a diferença.
Ótimo post!!! Quando abro meu internet bank e aparece uma mensagem ” parabéns você tem um credito pre-aprovaddo de xxxx” cria um sentimento de importancia, de que sou especial. Na hora de contratar um produto é interessante olhar com racionalidade, esquecer um pouco as emoções, senão serão emoções fortes até o término da dívida.
Esse lance de crédito é surreal. O meu banco (BB, que é dos mais conservadores) me oferece linhas de crédito que somadas chegam a 15 vezes minha renda mensal líquida. Imagina se eu resolvo pegar isso tudo? Será que eles me dariam mesmo? Eu duvido que um dia eu conseguisse pagar 15 vezes minha renda mensal com juros de até 12% ao mês. É a verdadeira conversinha para boi dormir.
Abraços.
P.S. Valeu pelos créditos (esse é crédito mesmo) do IR nos ETFs. Me senti honrado com a citação.
Me ligaram dia desses, oferecendo 13 mil reais.
O Atendente disse ” Pelo ótimo relacionamento do senhor com o banco, estamos oferecendo um crédito de 13 mil reais, para o Sr comprar uma moto, trocar de carro ou realizar um sonho qualquer”.
Eu perguntei ” Qual a taxa de juros”?
Ele disse: “Apenas 5,5% ao mês”
5,5% ao mês???? Disse pra ele… Isso está mais pra pesadelo do que sonho hehe.
Excelente post, realmente. Abre os olhos para enxergarmos coisas que normalmente não vemos. Só me ocorreu uma dúvida. E o tipo de “dívida boa”? Dívidas que acumulamos em prol de um investimento que nos trará um retorno maior que os juros das dívidas. Conseguimos esse tipo de dívida por esse meio de crédito também?
Quando os interesseiros me ligam, tento cortar logo o barato deles! Falam que tenho 5.000 disponível, ai eu digo que isso não paga nem um final de semana do hotel que fico (se fosse verdade…) ! kkkkkkkkkkkkk Dá para perceber a raiva no tom de voz deles! kkkkkkkkkkk aí eles acabam desistindo. Seu site virou leitura obrigatória das manhãs, parabéns!
Pessoal, muito obrigado pelos comentários!!!!
Gostei de ver, não sou só eu que vive recebendo essas ofertas de dívidas disfarçadas de “nome bonito”….rsrsrs
E, realmente, tudo está mais pra pesadelo do que pra sonho…rsrsrs
É isso aí!
Um grande abraço, e que Deus os abençoe!
Valeu, Guilherme, pelo texto. Parabéns. Você disse tudo, fera.