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Será que o dólar alto realmente favorece a exportação ?

Naturalmente, pensamos que o dólar apreciado favorece a exportação. Ok, favorece, esse é o raciocínio básico.

Mas a gente esquece de colocar nessa conta alguns fatores importantes que se adicionados em um “liquidificador” alteram bastante a receita.

Os maiores exportadores do Brasil, exportam commodities agrícola e minério. Essas empresas fazem contratos com empresas de fora, porém esses contratos são futuros, com dólar pré-fixado. Partindo por essa lógica, o reajuste somente será feito em novos contratos.

(Por exemplo, a empresa fechou um contrato a 3 reais e o dólar está sendo negociado na casa dos 3,50, essa diferença seria vantajosa, mas ele só conseguirá fixar o dólar a 3,50 quando um novo contrato for realizado. Com isso, as empresas que exportam acabam arriscando muito alto, porque assim como o dólar sobe, ele também pode cair. Aconselha-se sempre, que a especulação seja a menor possível, para que não aconteça casos como o da Sadia em 2008.

Quando o novo contrato for realizado, poderá ter havido uma mudança na política de preços e para compensar o dólar alto e não afetar os contratos, diminui-se o preço do produto, e é aí que mora o perigo. Como as commodities são precificadas por um mercado aonde respeita-se sazonalidades e cenário internacional, essa conta acaba trazendo alterações de estratégia, armazenagem, negociação e caixa para as empresas. Podendo a empresa, por exemplo, ganhar o mesmo valor produzindo menos ou vendendo a mesma quantidade anterior e tendo uma margem menor, essa é a expectativa do mercado e são muitas as variáveis.)

Muitos insumos, fertilizantes e matérias primas são importadas, os contratos de compra são feitos a curto prazo e têm impacto imediato no caixa da empresa. (Paga-se mais, aumenta-se o custo e consequentemente aumentam os preços, no caso desse mercado, diminui a margem.)

Em muitos casos, torna-se inviável a compra de insumos fora. São os casos de indústrias de eletrônicos, as peças encarecem consideravelmente e o produto final acaba ficando muito acima dos concorrentes. Prejudicando o mercado interno que é onde essas empresas tem uma maior concentração de clientes (governo, atendendo outras empresas).

Infelizmente, não somos competitivos na maioria dos produtos de eletrônicos, o que atrai poucos contratos para a exportação.

A China mostra sinais de desaceleração, sendo esse um dos países que mais afeta os contratos brasileiros, seja por importação direta ou por influência de países importadores, este é um cenário capaz de acender qualquer sinal amarelo de empresas que tem a China como seu destino de produto final.

O que tendemos sempre a nos equivocar é sobre o prazo que uma mudança na China traz para os acordos comerciais. Apesar das bolsas de valores do mundo inteiro reagirem instantaneamente às notícias do mercado, o impacto real nos contratos serão sentidos conforme as reduções forem acontecendo.

Uma forma de se precaver, é tentar polarizar os clientes em diferentes mercados, evitando vender para uma região só. Mas sabemos muito bem que esses planejamentos geralmente são travados por quem tem a Prata quente no momento, neste caso, a China.

O consumo interno também está sofrendo alterações. No caso das commodities demora mais para diminuir o consumo interno em um cenário de crise, mas essa alteração provoca uma relação direta com o preço. Principalmente, quando falamos de combustíveis e produtos que tem disputa constante de demanda interna e externa, como é o caso do Frango.

Com a redução de grau de investimento brasileiro e com a taxa Selic quase alcançando a marca de 15%, os investimentos acabam sendo retraídos e fica bem mais caro captar dinheiro com os bancos. Por isso nesse período de instabilidade econômica, muitas empresas acabam se fundindo ou até mesmo adquirindo umas às outras.

Mas o que isso afeta no cenário de exportação?

Se o dólar continuar apreciando e os contratos diminuírem, atrelado ao consumo interno também diminuir e os recursos para empréstimos e investimentos ficarem mais restritos, a crise que ‘não existia’ aos olhos do mero mortal brasileiro começará a mostrar sua força.

O processo de exportação ainda é muito burocrático para casos de B2B, (Business to Business) e nos casos de B2C (Business to Constumer), o país oferece poucas opções de transporte e estrutura. Os portos estão em constante desenvolvimento, apesar da crise não gerar esses problemas, ela atenua as dificuldades, impedindo uma expansão maior da exportação. No caso de empresas que vendem diretamente para seus consumidores finais, você ainda tem um agravante da conquista de mercado. Leva-se um tempo muito maior e um custo elevado para adquirir clientes fora do país.

Honestamente, essa é a grande oportunidade que governo e empresas encontram num cenário como este. Investimentos em desenvolvimento logístico, no fortalecimento de empresas de manufatura e no estímulo para a importação das PME (Pequena e Média empresa) mudariam consideravelmente o ambiente para a exportação.

Agora uma pergunta séria, será mesmo que o dólar apreciado beneficia um país primariamente exportador de commodities? É possível essas empresas utilizarem o aumento do dólar para favorecerem seus contratos e diminuírem o impacto da crise?

É possível, mas não sem dor. O Brasil vem apresentando crescimento na exportação de produtos manufaturados, que possuem maior valor agregado e que não dependem tanto de precificação do mercado.

Além disso, toda e qualquer empresa pode e deve desenhar alguns cenários projetando o que pode acontecer e como reagir em cada desenrolar do mercado, com isso é possível diminuir os riscos envolvidos e ajudar na preparação para o futuro. Muito mais do que estar preparado para enfrentar os cenários otimistas é preciso, principalmente, estar disposto e prevenido para enfrentar os cenários pessimistas.

Obs.: Essa é uma análise superficial sobre o cenário deste mercado. Alguns fatores que não foram relacionados podem afetar diretamente o andamento do processo, respeitando sempre a área e mercado em que se atua.


Brunna Paese é consultora de negócios e estratégias e empreende na Vicky & Bardot, Formada em Administração pela Unioeste com MBA em Gestão Estratégica na ISAE/FGV